Artigos

Uma grave crise alimentar atinge o leste do Sahel

Por Clément Lacombe - Le Monde - 14/4/2010

Os apelos à mobilização aumentam, enquanto as populações começam a fugir das zonas atingidas.

“Geralmente relutamos em usar esse termo. Mas agora ele deve ser usado: o leste do Sahel enfrenta o fantasma da fome”, explica Olivier Longué, diretor-geral da Ação contra a Fome Madri, filial da organização não-governamental (ONG) que opera nessa região da África onde 300 mil crianças já morrem a cada ano de desnutrição.

As chuvas erráticas – fracas demais em alguns momentos, violentas demais em outros – prejudicaram seriamente a produção cerealista de 2009 em alguns países do Sahel: -34% no Chade em relação a 2008, -31% no Níger, -10% em Burkina Faso. Ainda que o Mali tenha se saído melhor no total (+10%), o nordeste do país também foi atingido. E isso gerou verdadeiros temores quanto à segurança alimentar das populações, uma ameaça já identificada há alguns meses.

Há alguns dias vêm aumentando os apelos à mobilização: em 31 de março, a ONG Oxfam estimava que “10 milhões de pessoas poderiam ser vítimas de uma grave crise alimentar” nos próximos meses; na terça-feira (6), o Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciava que iria triplicar sua ajuda ao Níger e ao Mali; no mesmo dia, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicava que 860 mil crianças com menos de 5 anos que vivem na região poderiam precisar “de tratamentos contra desnutrição aguda severa”; na quarta-feira, a ONU divulgava que ainda lhes faltava US$ 133 milhões (R$ 230 milhões), de um total de 190 milhões, para completar um programa de ajuda de emergência ao Níger.

“Estamos diante de uma situação realmente preocupante, mas não diante de uma fome”, relativiza Alhousseini Bretaudeau, secretário executivo do Comitê Interestadual de Luta contra a Seca no Sahel. “A produção de cereais no Sahel atingiu 16 milhões de toneladas em 2009, para necessidades estimadas em 14 milhões de toneladas. O verdadeiro problema é a má circulação dos alimentos, que cria bolsões de populações subalimentadas”.

“Países como o Níger ou o Chade estão sempre na corda bamba, ainda são dependentes das importações”, acredita Bernard Bachelier, presidente da Fundação para a Agricultura e Ruralidade no Mundo (FARM). “Entretanto, depois dos tumultos causados pela fome, os países ricos haviam prometido ajudar no desenvolvimento de culturas alimentares no mundo ao prometer desbloquear 20 bilhões de euros em 2008, e mais 23 bilhões em 2009. Mas essas somas ainda não foram pagas”.

O Níger, ainda marcado pela grande fome de 2005, e onde a expectativa de vida é de 45,6 anos, é o país onde a situação é considerada a mais preocupante. No início do ano, um relatório governamental indicava que 7,8 milhões de pessoas, ou seja, 58% da população, se encontravam em situação de insegurança alimentar severa ou moderada. Ou seja, três vezes mais do que em 2008.

Essa situação contribuiu bastante, segundo humanitários e diplomatas, para a queda do regime do presidente Mamadou Tandja, em 18 de fevereiro, que tentava minimizar a extensão do fenômeno. A junta militar que chegou então ao poder logo indicou que sua prioridade seria lutar contra “a fome que ameaça a existência de milhões de nigerinos”.

Alguns deles já entraram no período de tempo entre o esgotamento das reservas e as novas colheitas, que acontecerão no fim de setembro e início de outubro. Esse período normalmente não começa antes de junho. Por isso, explicam observadores locais, famílias inteiras – e não somente homens, como aconteceu em outros anos - se deslocaram até os centros urbanos, na esperança de ganhar mais dinheiro e encontrar alimentos.

Niamey também reconheceu, em 2 de abril, que escolas primárias estavam parcial ou totalmente esvaziadas de seus alunos na região de Zinder (centro-sul), em razão do êxodo das famílias em direção às cidades, onde os salários são, por isso, nivelados por baixo. Os criadores de animais são os mais fragilizados, pois a queda da produção de forragem, da ordem de 60%, afetou profundamente seu gado, que perdeu quase todo seu valor em razão de seu estado: um carneiro, que era vendido a 30 mil a 50 mil francos CFA (R$ 107 a R$ 178), pode agora valer até dez vezes menos.

Essa situação exige uma resposta urgente e coordenada, acreditam as ONGs. “Nós estamos reagindo tarde demais”, acredita um diplomata. “Nós já não estamos mais em uma lógica de prevenção, mas sim de atenuação da crise. Não adiantará nada acordar em junho, quando as câmeras da BBC estiverem lá”.

(Família chadiana em um centro da Unicef; região leste do Sahel vive grave crise alimentar)


Outros Artigos da categoria "África":

Data Título Autor
24/2/2014 Deus abençoe a África Lanny Aresen – Diretor Internacional da MIAF.
17/10/2013 MIAF KIDS Paulo Feniman
21/3/2011 O impacto das últimas revoltas populares para os cristãos da Tunísia e Egito Missão Portas Abertas
3/3/2011 África, a Diversidade num Continente Denis Richter
31/8/2010 Nós temos um sonho! Paulo Feniman, Diretor Executivo - MIAF Brasil
28/7/2010 NAIROBI, Quênia Pr. Ricardo Matioli
17/5/2010 Janela 10/40 Anônimo
27/4/2010 A Circuncisão Feminina e a Mutilação Genital Traduzido de http://www.middle-east-info.org/index.html
13/4/2010 ÁFRICA: O CONTINENTE ABANDONADO Pedro Miskalo
25/9/2009 Kibera - Maior Favela da África em Nairobi - Quênia Ricardo Matioli
25/9/2009 Quem são as crianças da África. Paulo Feniman
8/9/2009 África é solo fértil para o Evangelho Danie Vermeulen
19/5/2009 A terra da Igreja desaparecida Ricardo Miranda
home | quem somos | ministérios | missionários | eventos | fotos | vídeos | links | contato
2014© MIAF - Missão para o Interior da África - Todos os direitos reservados
desenvolvido por leocello